domingo, 19 de agosto de 2018

2.2 Modalidades de aprendizado, de geração de conhecimento e de inovação





Por que alguns países conseguem escapar do subdesenvolvimento e outros não? Por que países que investem recursos similares em pesquisa têm crescimento econômico tão díspares? Perguntas como essas, que levantavam dúvidas sobre a validade ou a aplicabilidade generalizada do 'modelo linear' de Vannevar Bush, tornavam-se cada vez mais frequente à medida que surgiam histórias de sucesso econômico de países sem tradição em pesquisa básica.

A maneira como instituições e países organizam suas atividades de pesquisa e utilizam os conhecimentos daí advindos constitui um vastíssimo campo de estudos [1,2] do qual abordaremos apenas alguns aspectos mais relevantes.

Conhecimento, inovação, aprendizado
  • Como vimos na aula passada, e exploraremos agora em mais detalhes, Gibbons et al chamaram a atenção para os Modos 1 e 2 de geração de conhecimento utilizados majoritaria e respectivamente, por exemplo, pela academia e pela indústria [3];
  • Neste módulo veremos exemplos de instituições e organizações cuja missão e visão levam-nas a dar prioridade quer ao Modo 1 quer ao Modo 2 de geração de conhecimento, e os passos que levaram o Brasil a implementar, no Ministério da Saúde, estruturas e programas que operam no Modo 2, uma conquista das Conferências Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde de 1994 e 2004 [4,5];
  • Jensen et al definem dois modos de inovação: o Modo STI (Science, Technology and Innovation) e o Modo DUI (Doing, Using and Interacting)[6]. O primeiro lidaria com perguntas do tipo know-what e know-why, buscando ampliar o conhecimento científico e tecnológico; o segundo, com as perguntas know-how e know-who, estaria baseado no aprendizado e na troca de experiências. Segundo estes autores as empresas aptas a usar os dois Modos teriam maiores chances de serem inovadoras.

Diferenças e peculiaridades entre 'o Sul' e 'o Norte'
  • Eduardo Viotti, num estudo em que analisa comparativamente as trajetórias de desenvolvimento do Brasil e da Coréia, propõe que a abordagem analítica "Sistemas Nacionais de Inovação" utilizada pelos países industrializados não se aplicaria a países ainda em desenvolvimento [7]. Nestes, pouco inovadores, seria mais adequado se falar em "Sistemas Nacionais de Aprendizado" que, por sua vez, poderia ser ativo - como no caso da Coréia - ou passivo, como no Brasil. Outros autores disputam esta visão, argumentando que Viotti baseia sua análise em inovações radicais, minimizando o fato que "the rate of technical change and of economic growth dependend more on efficient diffusion than on being first in the world with radical innovations and as much on social innovations as on technical innovations" [8,9]
  • Por sua vez Arocena e Sutz, num interessante artigo, analisam e lançam novas luzes sobre as diferenças entre "o Sul" e "o Norte" relativas aos respectivos sistemas e políticas de conhecimento, inovação e aprendizado [10].
Uma abordagem histórica é também essencial no estudo destas questões e para a compreensão da trajetória do desenvolvimento científico e tecnológico de países que atingiram diferentes graus de industrialização. Basalla, em um artigo clássico, propôs que a ciência ocidental teria se originado em um pequeno número de países europeus e se disseminado pelo mundo em três fases distintas: (i) estudos da fauna, flora e demais características de países recentemente colonizados; (ii) ciência colonial; (iii) tradição científica independente [11]. Já Sagasti critica esta visão como excessivamente eurocêntrica por propor uma única origem de uma ciência mundial que se "difundiu" pelo mundo deslocando conhecimentos e práticas endógenas aos demais continentes; em vez disso - "difusão" da C&T européia e recebimento passivo pelas colônias - teria havido, na realidade um processo muito mais rico de "difusão, absorção e reinterpretação" [12]. Nas próximas aulas veremos como esta abordagem auxilia a compreensão de fenômenos como o surgimento de "países em desenvolvimento inovadores" (Innovative Developing Countries, IDCs).

Referencias citadas
  1. Lastres HMM, Cassiolato JE, Arroio A (2005) Conhecimento, sistemas de inovação e desenvolvimento. Edited by Lastres HMM, Cassiolato JE, Arroio A. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/Contraponto
  2. Kim L, Nelson RR (2005) Tecnologia, aprendizado e inovação: As experiências das economias de industrialização recente. Editado por Editora Unicamp. Campinas, SP
  3. Gibbons M, Limoges C, Nowotny H, Schwartzman S, Scott P, Trow M (1994) The new production of knowledge: the dynamics of science and research in contemporary societies. London; Thousand Oaks; New Delhi: SAGE Publications
  4. Brasil. Ministério da Saúde. Coordenação Geral de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, editor. Anais da 1a Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia em Saúde - I CNCTS, 1994.
  5. Brasil. Ministério da Saúde, Conselho Nacional de Saúde, editor. 2ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde, 2004.
  6. Jensen MB, Johnson B, Lorenz E, Lundvall BA (2007) Forms of knowledge and modes of innovation. Research Policy 36:680-693
  7. Viotti EB (2002) National Learning Systems - A new approach on technological change in late industrializing economies and evidences from the cases of Brazil and South Korea. Technological Forecasting and Social Change 69:653-680
  8. Lundvall B-Å, Vang J, Joseph KJ, Chaminade C (2009) Innovation system research and developing countries. In: Lundvall B-Å, Joseph KJ, Chaminade C, Vang J (ed.) Handbook of Innovation Systems and Developing Countries. Edward Elgar, pp. 1-30
  9. Freeman C (1995) The national innovation systems in historical perspective.Cambridge Journal of Economics 19:5-24
  10. Arocena R, Sutz J (2005) Conhecimento, inovação e aprendizado: Sistemas e políticas no Norte e no Sul. In Conhecimento, sistemas de inovação e desenvolvimento. Edited by Lastres HMM, Cassiolato JE, Arroio A. Rio de Janeiro: Editora UFRJ / Contraponto; pp. 405-428.
  11. Basalla G (1967) The Spread of Western Science. Science 156:611-622
  12. Sagasti F (2004) Knowledge and innovation for development. The Sisyphus challenge of the 21st century. Cheltenham, UK; Northampton, USA: Edward Elgar

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

2.1 Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico: Modelos e Desafios





O chamado "modelo linear" do desenvolvimento tecnológico originou-se do famoso Relatório Science The Endless Frontier preparado por Vannevar Bush atendendo pedido feito em 1944 por Franklin Roosevel, então Presidente dos EUA [1-3]. Classificando as atividades de pesquisa como básica (visando conhecimento, realizada em universidades) ou aplicada (visando uso, que seria responsabilidade das indústrias), defendendo total separação entre elas e insinuando que a pesquisa básica era precursora e dínamo do progresso tecnológico, este Relatório plasmou "o paradigma dominante para a compreensão da ciência e de sua relação com a tecnologia durante todo o resto do século XX" [4]. Este modelo linear, proposto quando a humanidade estava sob o impacto do lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, pautou a política de C&T do pós-guerra não só dos EUA mas da maioria dos países do mundo ocidental, o Brasil inclusive.

Diversos fatores e eventos iniciaram o desgaste deste modelo. Países sem tradição de pesquisa básica, que haviam trilhado caminhos alternativos, ameaçavam os seguidores da ortodoxia do modelo linear conseguindo espetaculares avanços tecnológicos e comerciais (lançamento do Sputinik em 1957 pela então União Soviética; desenvolvimento acelerado da indústria japonesa automotiva desbancando a dos EUA). O modelo linear começou então a ser questionado sob diversos ângulos, como por exemplo: (i) por órgãos de governos, que se perguntavam se investimentos apenas em pesquisa básica seriam suficientes para enfrentar a crescente competitividade resultante da globalização; (ii) pela comunidade acadêmica, que reconhecia a crescente importância de novos modos de geração de conhecimento como no modelo "Modo 1 / Modo 2" [5,6], recentemente objeto de interessante análise e crítica [7].

Em 1997 Stokes propõe um "Plano Conceitual" em substituição à "linearidade" do modelo de Vannevar Bush e chama a atenção para a importância que teria a "pesquisa inspirada no uso" do "Quadrante de Pasteur" deste Plano [4]. Concomitantemente com estes questionamentos, emerge aos poucos toda a complexidade, importância e poder transformador da inovação [8-11]. Nos países em desenvolvimento, contudo, poderosas barreiras entre ciência, tecnologia e produção industrial parecem constituir um verdadeiro "desafio de Sísifo" a ser vencido [12], abrindo um novo campo de pesquisas [13]. Por sua vez nos países desenvolvidos surge um novo fenômeno, em particular na área biomédica, denominado de "Vale da Morte": um hiato cada vez maior entre a pesquisa básica e a pesquisa clínica, faz com que descobertas de pesquisadores nos laboratórios não gerem novos medicamentos [14,15]

Cristaliza-se o entendimento de que a ciência é apenas um dos muitos componentes da inovação, que não pode ser entendida ou estudada apenas no contexto da interpretação clássica do modelo linear, tão caro à academia pela importância que nele teria a investigação básica [16]. Neste contexto é importante ressaltar o recente artigo de Balconi e colaboradores que analisa em detalhes os pontos fracos e fortes do modelo linear, numa reação "ao hábito de criticá-lo como simplístico, mecanístico ou completamente errado". Segundo estes autores, embora muitas críticas sejam válidas, outras seriam interpretações incorretas, injustificadas ou baseadas em visões caricaturais do modelo que pouco teriam a ver com a concepção original de Vannevar Bush [17].

Referencias citadas
  1. Bush V (1945) Science The Endless Frontier. A Report to the President. Washington, United States Government Printing Office (http://www.nsf.gov/od/lpa/nsf50/vbush1945.htm)
  2. Zachary GP (1999) Endless Frontier: Vannevar Bush, Engineer of the American Century. MIT Press. 528 pp.
  3. Science The Endless Frontier: Learning from the Past, Designing for the Future. Highlights from the Conference Series (1994, 1995, 1996). (http://www.cspo.org/products/conferences/bush/)
  4. Stokes DE (1997) O Quadrante de Pasteur. A ciência básica e a inovação tecnológica, edn Tradução 2005 pela Editora Unicamp. Campinas: Editora Unicamp (http://www.editora.unicamp.br/)
  5. Gibbons M, Limoges C, Nowotny H, Schwartzman S, Scott P, Trow M (1994) The new production of knowledge: the dynamics of science and research in contemporary societies. London; Thousand Oaks; New Delhi: SAGE Publications
  6. Nowotny H, Scott P, Gibbons M (2003) Introduction: ‘Mode 2’ revisited: The new production of knowledge. Minerva, 41(3):179–194
  7. Hessels LK, van Lente H (2008) Re-thinking new knowledge production: A literature review and a research agenda. Research Policy 37:740-760.
  8. Coleção "Clássicos da Inovação", Editora Unicamp, Campinas, São Paulo (http://www.editora.unicamp.br/)
  9. Mccraw T (2007) Prophet of Innovation: Joseph Schumpeter and Creative Destruction. Cambridge and London: Belknap Press of Harvard University Press
  10. Fagerberg J, Mowery D, Nelson R (2006) The Oxford Handbook of Innovation (Oxford Handbooks). Oxford University Press, USA
  11. Hekkert MP, Suurs RAA, Negro SO, Kuhlmann S, Smits REHM (2007) Functions of innovation systems: A new approach for analysing technological change. Technological Forecasting and Social Change 74(4):413–32 http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0040162506000564
  12. Sagasti F (2004) Knowledge and innovation for development. The Sisyphus challenge of the 21st century. Cheltenham, UK; Northampton, USA: Edward Elgar
  13. Lundvall B-A, Joseph KJ, Chaminade C, Vang J (2010) Handbook on Innovation Systems and Developing Countries: Building Domestic Capabilities in a Global Setting. Edward Elgar Publishing, 395 pp.
  14. Butler D (2008) Translational research: crossing the valley of death. Nature, 453:840-842 (http://www.nature.com/news/2008/080611/full/453840a.html)
  15. Kaitin KI (2010) Deconstructing the Drug Development Process: The New Face of Innovation. Clinical Pharmacology and Therapeutics 87 3, 356-361
  16. Fagerberg J (2005) Innovation: A Guide to the Literature. In: The Oxford Handbook of Innovation. Edited by Fagerberg J, Mowery D, Nelson RR. Oxford: Oxford University Press; pp. 1-26.
  17. Balconi M, Brusoni S, Orsenigo L (2010) In defence of the linear model: An essay. Research Policy 39:1-13

sábado, 11 de agosto de 2018

Aula extra: Ferramentas




Nesta aula extra apresentaremos algumas ferramentas que podem ajudar os pós-graduandos a redigirem suas dissertações de mestrado, teses de doutorado ou artigos:
  • Banco de referências bibliográficas: demonstraremos o uso do Zotero https://www.zotero.org/ 
    • Como sistema independente acessível pelos navegadores Firefox, Chrome ou Safari;
  • Elaboração de bibliografias: demonstraremos como o Zotero pode ser usado acoplado ao software Word, da Microsoft, para a inserção de:
    • Citações bibliográficas durante a digitação dos textos das dissertações ou teses;
    • Lista de referências bibliográficas, seguindo as normas da ABNT, ao final da dissertação ou tese;
  • Sistema de editoração LaTeX: demonstraremos o uso deste software avançado, gratuito e que roda em Windows, Mac e Linux, seja instalando uma plataforma LaTeX nos computadores dos usuários, seja usando plataformas online baseadas no LaTex, como a "Overleaf" (https://www.overleaf.com/) que disponibiliza diversos moldes (templates) para redação de textos, artigos, livros, teses.
    • Um "micro-curso" sobre uso do LaTeX, de autoria do Prof Miguel V. S. Frasson da USP, foi incluído no banco de artigos do curso mas pode também ser baixado como pdf neste link;
    • Será apresentado o banco de referências BibDesk, usado pelo LaTeX e por computadores Mac http://bibdesk.sourceforge.net/ 

1.2 A dicotomia "Norte-Sul" dos anos 50




Nos anos 1950 as estatísticas de saúde dos países em desenvolvimento eram trágicas: expectativa de vida ao nascer, 40 anos; 28 crianças de cada 100 nascidas vivas morriam antes de completar 5 anos de idade; a varíola matava anualmente mais de 5 milhões de pessoas [1]. Uma série de conceitos, preconceitos e 'dogmas' pautavam então o pensamento dominante na área da saúde, como por exemplo: (i) divisão do mundo entre países ricos, desenvolvidos e saudáveis (denominados coletivamente "o Norte") e países pobres, atrasados e doentes, incapazes de, sozinhos, combaterem as doenças que os afligiam ("o Sul"); (ii) pouca prioridade para a pesquisa em saúde, vista como desnecessária, supérflua, cara, ineficiente e portanto consumidora de verbas que seriam melhor empregadas no controle de doenças. 

Nos anos 90 a expectativa de vida aumentara para 63 anos, a mortalidade dos menores de 5 anos decaíra para 10% e a varíola tinha sido erradicada da face da terra [1]. Mas, ao lado desses sucessos, a campanha de erradicação da malária teve de ser abandonada e permaneceram inaceitáveis as diferenças das condições de saúde entre os países ricos e pobres, que continuaram a ser rotulados como "o Norte" e "o Sul", numa estranha geografia que coloca a India "no Sul" e a Austrália "no Norte" [2].

No final do século passado surgiram iniciativas visando combater esta situação e iniciar uma espécie de "desconstrução" destes preconceitos e "pseudo-dogmas":

  • Em 1974 a 27ª Assembléia Mundial da Saúde autoriza a criação do "TDR", Programa Especial de Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais [3];
  • Em 1990 Relatório da "Comissão sobre Pesquisa em Saúde para o Desenvolvimento" chama a atenção para a importancia da pesquisa em saúde como elo essencial para um desenvolvimento com equidade [4]; uma Força-tarefa, apoiada nas recomendações deste Relatório, propõe a criação de uma Organização para levar adiante o trabalho da Comissão;
  • Em 1993 é criado então para esta finalidade o COHRED, "Council on Health Research for Development", Organização responsável pela disseminação do conceito de "Essential National Health Research" proposto pela Comissão;
  • Em 1993 o Banco Mundial publica relatório enfatizando a importância do investimento em saúde para o desenvolvimento dos países [1], mas com um receituário controvertido e de efeitos sanitários escassos ou mesmo danosos;
  • Em 1996 a Organização Mundial da Saúde publica o Relatório de um Comitê Ad hoc sobre investimento em pesquisa em saúde e desenvolvimento [5];
  • Em 1998 é fundado o "Forum Global para a Pesquisa em Saúde" que enfatiza o "hiato 10/90" - somente 10% do investimento global em pesquisa e desenvolvimento em saúde é dedicado às doenças que afligem 90% das populações mais pobres (*).
Todas estas iniciativas apostavam na pesquisa em saúde como instrumento essencial para superar as desigualdades sanitárias. Mas em geral ainda distinguiam a missão nobre, reservada aos países do "Norte" (ativos, responsáveis pela pesquisa, desenvolvimento e produção), do papel secundário do "Sul" (países passivos, recebedores das vacinas e medicamentos gerados nos países avançados). Não reconheciam ainda que a pesquisa, por ser apenas um dos componentes essenciais dos Sistemas Nacionais de Inovação [6] e dos Sistemas de Inovação em Saúde [7], não poderia, isoladamente, modificar substantivamente o status-quo.

Importante ressaltar que na década de 1970 o Brasil, - já meio na contra-mão pois pertence "ao Sul" -, cria o Programa Integrado de Pesquisa em Doenças Endêmicas (PIDE/CNPq). Este Programa, inovador, precoce e criado antes mesmo do TDR, também reconhecia a importância da pesquisa em saúde, mas tinha uma característica única: Partia do princípio que os atores principais estavam no país e não "no Norte" [8-10].

A validade atual desta dicotomia Norte-Sul em saúde será analisada utilizando o sistema "Gapminder" (https://www.gapminder.org/) desenvolvido por Hans Rosling, professor de saúde internacional no Instituto Karolinska, Estocolmo, para visualizar a evolução temporal do desenvolvimento econômico e sanitário de países (aconselhamos os pós graduandos do PPED a assistirem vídeos das apresentações desse professor: https://www.ted.com/speakers/hans_rosling, em particular o "The magic washing machine", a máquina de lavar mágica). Falecido em 7/2/2017, sua obra é continuada pelos seus dois filhos, que editaram o livro "Factfulness: Ten Reasons We're Wrong About the World--and Why Things Are Better Than You Think".

Discutiremos em seguida algumas iniciativas mais recentes:
  • A criação, a evolução e o papel das Parcerias para o Desenvolvimento de Produtos (PDPs) internacionais - no desenvolvimento de intervenções de saúde, como vacinas, medicamentos, reagentes para diagnóstico, controle de vetores [11];
  • A proposta que os países formam agora "Três Clubes de Desenvolvimento" [12], ficando superada e anacrônica a visão Norte/Sul;
  • Evolução conceitual de "pesquisa em saúde" para "inovação em saúde", onde Acesso  [13] das populações às inovações constitui o objetivo maior.
Esta discussão nos conduzirá, nas próximas aulas, a analisar a importancia da inovação em saúde e a proposição da designação "Países em Desenvolvimento Inovadores" ("Innovative Developing Countries", IDCs) baseado nesta visão.

(*) Nota: em 2010 o COHRED e o Global Forum se uniram em uma única organização, mantendo o nome COHRED (http://www.cohred.org/home/) e com a responsabilidade de continuar a organizar as reuniões do Global Forum.

Referências citadas
  1. The World Bank (1993) World Development Report 1993: Investing in Health. Edited by The World Bank. Oxford: Oxford University Press
  2. Morel CM (2003) Neglected diseases: under-funded research and inadequate health interventions. Can we change this reality? EMBO Reports 4 Spec No: S35-S38.
  3. Ridley RG, Fletcher ER (2008) Making a difference: 30 years of TDR. Nature Reviews Microbiology 6:401-407
  4. Commission on Health Research for Development (1990) Health Research: Essential Link to Equity in Development. New York: Oxford University Press (http://www.cohred.org/sites/default/files/ComReports_0.pdf)
  5. Ad Hoc Committee on Health Research - WHO (1996) Investing in Health Research and Development. Report of the Ad Hoc Committee on Health Research Relating to Future Intervention Options. Edited by Godal T, Jamison DT, Tulloch J. TDR/Gen/96.1, 1-278. 1996. Geneva, Switzerland, World Health Organization.http://apps.who.int/tdr/svc/publications/tdr-research-publications/investing-in-health
  6. Lastres HMM, Cassiolato JE, Arroio A (2005) Conhecimento, sistemas de inovação e desenvolvimento. Editado por Lastres HMM, Cassiolato JE, Arroio A. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/Contraponto.
  7. Cassiolato JE, Soares, MCC (2015) Health Innovation Systems, Equity and Development. E-papers Serviços Editoriais, Rio de Janeiro, 2015.
  8. de Araújo JD (1985) O financiamento da pesquisa em doenças tropicais no Brasil Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 18(1):1-5
  9. Azevedo NMS, Kropf SP, Coura JR. O Programa Integrado de Pesquisa em Doenças Endêmicas (PIDE/CNPq) e a pesquisa sobre doença de Chagas nas décadas de 1970 e 1980 (http://www.fiocruz.br/chagas/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=59)
  10. Prata A, Roitman I, Duarte-de-Araújo J, Brener Z. O Programa Integrado de Doenças Endêmicas: 12 anos de existência. Mimeo
  11. Grace C (2010) Product Development Partnerships (PDPs): Lessons from PDPs established to develop new health technologies for neglected diseases. DFID/HDRC, 11.pp. (http://www.dfid.gov.uk/Documents/publications1/hdrc/lssns-pdps-estb-dev-new-hlth-tech-negl-diseases.pdf)
  12. Vollmer S, Holzmann H, Ketterer F, Klasen S, Canning D (2013) The emergence of three human development clubs. PloS One, 8(3):e57624
  13. Frost LJ, Reich MR (2008) Access: How do good health technologies get to poor people in poor countries? Harvard Center for Population and Development Studies. pp. 264 (http://www.accessbook.org/)

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

1.1 Saúde: Consequência e requisito para o desenvolvimento





Iniciaremos o curso demonstrando o uso do sistema de geração de mapas  "Worldmapper" (http://www.worldmapper.org/) para a visualização das desigualdades sanitárias, demográficas e econômicas ao redor do mundo [1]. Em seguida discutiremos a célebre "Curva de Preston", que relaciona mortalidade e desenvolvimento econômico, assim conhecida por ter sido proposta em artigo clássico publicado por Samuel Preston em 1975, portanto há mais de 40 anos [2]. Os achados de Preston, até hoje objetos de intensa discussão [3], fundamenta o debate entre duas escolas de pensamento: (i) os que afirmam que "wealth is health" (riqueza leva a saúde) [4] e (ii) os que, não necessariamente negando que desenvolvimento econômico induz melhoras nas condições de saúde de um país ou população, enfatizam a relação oposta, "health is wealth" (a saúde como determinante essencial para o desenvolvimento) [5]. Uma terceira escola afirma que as duas direções são verdadeiras mas que é desejável que se pesquise mais o papel da saúde nas políticas de desenvolvimento econômico e social [6,7].

Até recentemente, predominava a visão clássica, defendida sobretudo por economistas [4] que desenvolvimento econômico seria uma condição prévia para verdadeiras melhorias em saúde. A Comissão de Macroeconomia e Saúde da Organização Mundial da Saúde partiu do contrário desta noção, sugerindo que melhoramentos em saúde são importantes e necessários para o desenvolvimento econômico. Confirmou que nos países onde a população sofre de má saúde e o nível de educação é baixo é mais difícil atingir desenvolvimento econômico sustentável [8,9]. Esta visão ganhou força pela inclusão de objetivos e metas relacionadas com a saúde nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da ONU para 2015 [10], nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e sua Agenda 2030 e por estudos que demonstram o impacto de doenças como a malaria no desenvolvimento econômico e social [11,12].

O Relatório da Comissão recebeu elogios pelas contribuições e impacto mas também pesadas críticas por se aproximar, em muitos pontos, de recomendações controversas emanadas do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional [13-16]. Uma revisão de 2008 sobre a história das políticas de saúde internacionais descreve sua evolução desde a célebre Conferencia Internacional de Alma Ata realizada no 
Cazaquistão em 1978 e deve ser consultada pelos que desejarem uma visão mais abrangente deste assunto [17]. As críticas de Carlos Gadelha ao Relatório da Comissão [18] servirão de introdução, ao final do curso, ao "Complexo Econômico Industrial da Saúde" (CEIS).

A perspectiva tradicional, que afirma que o desenvolvimento econômico contribui para a saúde [4], já está bem consolidada e comprovada por estudos que inferem esta causalidade [19,20].A visão emergente, da saúde como um determinante chave e um meio para se atingir o desenvolvimento e a redução da pobreza, ganha cada vez mais adeptos, tendo sido a base conceitual dos objetivos 4, 5 e 6 de desenvolvimento do milênio (http://www.un.org/millenniumgoals/) [10]. Para se aprofundar nas discussões sobre essa visão emergente, da contribuição da saúde para o desenvolvimento econômico, consultar os trabalhos de Husain [6,7] e critérios de causalidade [21]. 

Um estudo de 2013, que examinaremos em detalhes, abriu um novo debate nas interrelações entre saúde e desenvolvimento ao abordar o papel de políticas de austeridade econômica e da democracia (ou falta de) nas condições de saúde em países e populações [22]. Analisaremos em particular os efeitos da crise econômica na Rússia pós-comunismo, e como a Islândia e a Grécia reagiram diferentemente às políticas de austeridade propostas ou impostas por organismos financeiros internacionais.

Ao final da aula analisaremos brevemente a conjuntura atual no Brasil, suas contradições e tendências, baseados na obra de Jairnilson Silva Paim e Naomar de Almeida Filho [23,24], na Nota Técnica nº 26 do IPEA [25] e no artigo de Claudia Colluci na Folha de SP 14/8/2018 [26].

Referencias citadas

  1. Dorling D (2007) Worldmapper: The Human Anatomy of a Small Planet. PLoS Medicine 4:e1 (http://dx.doi.org/10.1371%2Fjournal.pmed.0040001)
  2. Preston SH (2007) The changing relation between mortality and level of economic development. Int. J. Epidemiol., 36(3):484–490 (republicação de artigo originalmente publicado no periódico Population Studies vol 29, n2, julho de 1975)
  3. Bloom DE, Canning D (2007) Commentary: The preston curve 30 years on: still sparking fires. Int. J. Epidemiol., 36(3):498–499
  4. Pritchett L Summers LH (1996) Wealthier is Healthier. The Journal of Human Resources, 31(4):841–868
  5. Bloom DE, Canning D (2000) The Health and Wealth of Nations. Science, 287(5456):1207–1209
  6. Husain MJ (2010) Contribution of Health to Economic Development: A Survey and Overview. Economics 4, 2010-14 (http://www.economics-ejournal.org/economics/journalarticles/2010-14)
  7. Husain MJ (2014) The Preston-Curve and the Contribution of Health to Economic Well-Being: Evidence From the DHS of India and Four African Countries. The Journal of Developing Areas, 48(2):85–121
  8. WHO Commission on Macroeconomics and Health (2001) Macroeconomics and Health: Investing in Health for Economic Development. Report of the Commission on Macroeconomics and Health. Geneva: World Health Organization (http://whqlibdoc.who.int/publications/2001/924154550X.pdf)
  9. Comissão sobre Macroeconomia e Saúde (2003) Investir na Saúde. Sumário das Conclusões da Comissão sobre Macroeconomia e Saúde. Genebra: Organização Mundial da Saúde (http://www.who.int/macrohealth/infocentre/advocacy/en/investir_na_saude_port.pdf)
  10. Morel CM (2004) A pesquisa em saúde e os objetivos do milênio: desafios e oportunidades globais, soluções e políticas nacionais. Ciência e Saúde Coletiva 9:261-276 (http://www.scielo.br/pdf/csc/v9n2/20380.pdf)
  11. Sachs J, Malaney P (2002) The economic and social burden of malaria. Nature 415:680-68 (http://www.nature.com/nature/journal/v415/n6872/pdf/415680a.pdf)
  12. Vitor-Silva S, Reyes-Lecca R, Pinheiro T, Lacerda M (2009) Malaria is associated with poor school performance in an endemic area of the Brazilian Amazon. Malaria Journal 8:230 (http://www.malariajournal.com/content/pdf/1475-2875-8-230.pdf)
  13. Morrow RH (2002) Macroeconomics and health. British Medical Journal 325:53-54(http://www.bmj.com/cgi/reprint/325/7355/53)
  14. Waitzkin H (2003) Report of the WHO Commission on Macroeconomics and Health: a summary and critique. The Lancet 361:523-526 (http://www.thelancet.com/pdfs/journals/lancet/PIIS0140-6736(03)12491-9.pdf)
  15. Katz A (2004) The Sachs Report: Investing in health for economic development - or increasing the size of the crumbs from the rich man's table? Part I. International Journal of Health Services 34:751-773
  16. Katz A (2005) The Sachs Report: Investing in health for economic development - or increasing the size of the crumbs from the rich man's table? Part II. International Journal of Health Services 35:171-18
  17. Maciocco G (2008) From Alma Ata to the Global Fund: The History of International Health Policy. Social Medicine 3(1):36-48 (http://journals.sfu.ca/socialmedicine/index.php/socialmedicine/article/view/186/380)
  18. Gadelha CAG (2012) Desenvolvimento e saúde. Valor Econômico, 21 de setembro.
  19. Barreto ML et al (2007) Effect of city-wide sanitation programme on reduction in rate of childhood diarrhoea in Northeast Brazil: assessment by two cohort studies. Lancet 370:1622–1628
  20. Rasella D et al (2013) Effect of a conditional cash transfer programme on childhood mortality: a nationwide analysis of Brazilian municipalities. Lancet 382:57–64
  21. Bhrolcháin MN, Dyson T (2007) On Causation in Demography: Issues and Illustrations. Population and Development Review, 33:1-36.
  22. Stuckler D, Basu S (2013) The Body Economic. Why austerity kills. Recessions, budget battles, and the politics of life and death. Basic Books, New York, pp. 216. ISBN978-0-465-06397-0 (e-book)
  23. Paim JS, Almeida Filho N (2014). Saúde Coletiva. Teoria e Prática. Medbook, Rio de Janeiro, RJ
  24. Almeida Filho N, Paim JS, Vieira-da-Silva L (2014) Saúde Coletiva: Futuros Possíveis. In: Paim & Almeida Filho (editores) Saúde Coletiva. Teoria e Prática. Medbook, Rio de Janeiro, RJ. pp 669-686
  25. Fabiola Sulpino Vieira. Crise econômica, austeridade fiscal e saúde: que lições podem ser aprendidas? Nota Técnica 26, IPEA, Brasilia - DF, 2016. http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/160822_nt_26_disoc.pdf
  26. Claudia Colluci (2018) O que mais precisa piorar para o país estancar a hemorragia na saúde pública? Folha de SP, 14/8/2018.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Estrutura do Curso




O curso IEP851 (2018) será ministrado pelos professores Carlos Morel e Claudia Chamas na sala 233 do IE, nas quartas-feiras, no horário 09:20-11:00 e 11:10-12:50 e abordará três grandes áreas:
  1. Saúde e desenvolvimento socioeconômico
    1. Saúde como conseqüência e requisito para o desenvolvimento econômico e social. Saúde, desenvolvimento e democracia.
    2. A dicotomia “Norte-Sul” dos anos 50 e os atuais "Três Clubes de Desenvolvimento"
  2. Pesquisa, desenvolvimento tecnológico, inovação: Histórico, modelos, obstáculos.
    1. O modelo linear do pós-guerra e sua adoção pelo Brasil. O Quadrante de Pasteur. O desafio de Sísifo e o Vale da Morte. Pesquisa translacional, ciência translacional.
    2. Modalidades de aprendizado, produção de conhecimento e inovação.
  3. Saúde e inovação tecnológica
    1. Inovação em saúde: Determinantes ou componentes da inovação em saúde; políticas de propriedade intelectual em países em desenvolvimento.
    2. Doenças negligenciadas. Redes de inovação em saúde. Um sistema global de inovação em saúde. Inovação em saúde no Brasil. O Complexo Econômico Industrial da Saúde (CEIS)
Acesso online a documentos do curso:
Aulas: http://www.cdts.fiocruz.br/morel/ufrj2018 (acesso livre)
Artigos e documentos: http://www.cdts.fiocruz.br/morel/Artigos/ (login e senha serão disponibilizados para os pós-graduandos).